Corpus
Christi:
Momento
para repensar o mistério da Eucaristia
José
Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo,
teólogo, escritor e professor universitário
O
primeiro momento deste processo reflexivo deveria ser um repensar a própria solenidade de Corpus Christi. Sabemos que esta
festa surgiu no auge de uma violenta crise pela qual passava a Igreja Católica.
A liturgia havia se sofisticado e se distanciado do povo. Era celebrada em
latim, língua não mais falada pelas comunidades. Além de serem celebradas numa
língua incompreensível, as liturgias eram pomposas, luxuosas, uma verdadeira
afronta aos pobres. Tinham se tornado uma coisa para o clero, pois o povo fora
reduzido a mudo espectador. Neste contexto corria solta a simonia: a celebração
dos sacramentos, especialmente da Eucaristia, dependia de muito dinheiro.
Assim, por exemplo, o preço da missa dependia do modo como o padre erguia a
hóstia consagrada durante a anamnesis, chamada de “consagração”, e considerada
o momento mais importante da missa. Quanto
mais alta a elevação, mais cara era a missa.
Por
essa e outras razões a liturgia ficou reduzida a mero devocionalismo. As
pessoas não mais participavam da Eucaristia e a tinham apenas como simples
devoção. Iam às igrejas para adorar o Santíssimo Sacramento e não para
participar da Ceia do Senhor. A situação ficou tão grave que a própria
hierarquia determinou que se comungasse pelo menos uma vez por ano, durante o
período da Páscoa. Foi neste contexto que o papa Urbano IV, em 1264, fixou a
solenidade de Corpus Christi: uma festa para adorar pública e pomposamente a
hóstia consagrada. Portanto, a festa de Corpus Christi, como veremos a seguir,
é um desvirtuamento radical do significado litúrgico do mistério do Corpo e do
Sangue do Senhor. Ou, se preferirmos, uma traição do pedido do Mestre: “Tomai e
comei, tomai e bebei”.
Considero
a festa de Corpus Christi, na forma como ainda é celebrada atualmente, um
desvirtuamento litúrgico e uma traição do mandato de Cristo por várias razões.
Antes de tudo porque Jesus não deixou dito que ele queria ser adorado
pomposamente num ostensório luxuoso nas igrejas e pelas vias públicas de uma
cidade. Colocar a Eucaristia, sacramento do simples e pobre pedaço de pão, num
ostensório de ouro é, recordando São João Crisóstomo, ofender aquele que não
tinha onde reclinar a cabeça.
Em segundo lugar porque o cerne
da Eucaristia está não na adoração, mas na refeição,
na comida, na ceia. Ou, se quisermos, o modo correto de adorar a Eucaristia é
participar da ceia, é comer do pão e beber do cálice. De fato, Jesus não disse
“tomem e adorem, mas tomem e comam, tomem e bebam”. A adoração eucarística
surgiu por meio do costume de se levar um pedaço do pão eucarístico para os
doentes impedidos de participar da celebração litúrgica dominical. E como se
acreditava que aquele pedaço de pão era o sacramento do Corpo e Sangue de
Cristo, enquanto ele não era levado e consumido pelo doente, era adorado como
sacramento da real presença de Cristo no meio da comunidade cristã.
O hábito de consagrar
hóstias apenas para trancá-las num “cofre dourado” e ser adorado pelas pessoas
é um costume que nasce no contexto de crise antes mencionado, quando se havia
perdido por completo a noção do mistério eucarístico. Portanto, é algo que destoa
do significado da Eucaristia para a comunidade cristã. As normas para o culto à
Eucaristia fora da missa, emanadas pelo próprio Vaticano, são muito claras a
este respeito. Chegam inclusive a dizer que se deve evitar neste culto tudo
aquilo que possa tirar da Eucaristia a sua natureza de alimento, de comida, de
refeição. Por rigor de lógica as espécies eucarísticas, quando colocadas para a
veneração dos fiéis, deveriam ser postas em pratos de comida e não em
ostensórios luxuosos. Porém, as próprias autoridades eclesiásticas são as
primeiras a não obedecer aquilo que escrevem para os outros.
Em consonância com o que
acabou de ser dito, a festa de Corpus Christi deveria ser uma oportunidade para
uma profunda catequese sobre o que é,
de fato, a Eucaristia. Infelizmente a crise antes mencionada levou a se pensar
na Eucaristia como o sacramento da “carne” do homem histórico Jesus de Nazaré.
Assim a concepção comum presente na mente de bispos, padres e fiéis é que os
termos “carne”, “corpo”, “sangue” se refiram exclusivamente ao corpo biológico
de Jesus. A Eucaristia seria a transformação de algumas hóstias e de um pouco
de vinho num amontoado de células e moléculas do corpo físico do Jesus
histórico que viveu na Palestina há dois mil anos.
Porém, quando nos voltamos
para os textos bíblicos não é essa a compreensão que temos. O termo “corpo” (em
hebraico “basar” e em grego “soma”) não significa apenas o aspecto biológico,
mas a pessoa inteira na sua condição de corporalidade. Trata-se da pessoa na
sua totalidade revelada em sua forma visível e em comunicação com os outros.
Jesus, segundo Marcos (14,22-24), o mais antigo dos evangelhos, ao dizer na
última ceia “éstin tò somá mon” (“isto é o meu corpo”) e “éstin tò haîmá mon” (“isto
é o meu sangue”), não está se referindo apenas ao seu corpo biológico, às
células do seu corpo físico, mas à totalidade da sua pessoa de Filho de Deus
encarnado. E quando convida os discípulos a comerem do seu “corpo” e a beberem
do seu “sangue” Jesus não está pensando num ritual antropofágico ou canibal,
mas num gesto de comunhão e de adesão plena à sua pessoa.
O biblista italiano Settimio
Cipriani, que estudou profundamente esta questão, afirma que as palavras de
Jesus poderiam ser traduzidas da seguinte maneira: “O que estou fazendo
(partindo o pão e distribuindo-o) significa a oferta da minha pessoa por
vocês”. De fato, nas culturas antigas, especialmente na cultura judaica, o ato
de comer e de comer juntos não tem apenas o significado biológico de ingerir
substâncias para saciar a fome e manter-se vivo. Comer e comer juntos tem um
significado simbólico, sacramental: significa que os comensais participam da
mesma sorte, estão unidos pelo mesmo destino, estão em comunhão entre si. Assim
sendo, a participação na Eucaristia, na Ceia do Senhor, é um gesto sacramental
através do qual o cristão e a cristã manifestam a sua adesão total à pessoa de
Jesus e se dispõem a participar da mesma sorte do Mestre. Portanto, reduzir a
Eucaristia a um significado meramente biológico, a um pedaço da carne biológica
de Cristo (como se tem feito em alguns casos de supostos milagres eucarísticos)
é desvirtuá-la completamente do seu verdadeiro significado sacramental.
Isso pode ser confirmado
pelo texto eucarístico do Evangelho de João (6,51-56). Mesmo não narrando a
instituição da Eucaristia, João apresenta Jesus convidando seus ouvintes a
comerem a sua carne e a beberem o seu sangue. Sabemos que na Bíblia o termo
“carne” (em hebraico “basar” e em grego “sárx”) não significa apenas o elemento
físico, biológico, mas a pessoa humana, na sua totalidade, existindo como ser
frágil e mortal. É o ser humano total na sua condição de caducidade. Por sua
vez o “sangue” (em hebraico “dam” e em grego “haîma”) não significa apenas o líquido
vermelho que escorre nas veias do ser humano, mas a sua vida, o seu existir
pleno. O convite de Jesus feito a seus ouvintes significa um convite a entrar
em plena sintonia com a sua pessoa e o seu projeto de vida. Participar da
Eucaristia é aderir ao mistério do Filho de Deus que “se fez carne” (Jo 1,14),
ou seja, que abriu mão da sua condição divina para viver entre nós como
“simples homem” (Fl 2,7-8). Participar da Eucaristia não é participar de um
rito antropofágico, no qual se come um pedaço da carne biológica do Jesus
histórico, mas comungar da sua fragilidade, da sua fraqueza, da sua encarnação.
Se entendêssemos isso causaríamos uma verdadeira revolução no cristianismo e
contribuiríamos para o advento de uma nova humanidade.
Por fim, a festa de Corpus
Christi deveria ser um momento para se pensar numa solução definitiva para o problema daquelas milhares de comunidades
cristãs espalhadas pelo mundo e que são privadas da celebração eucarística
dominical, por falta de um ministro ordenado que a presida. Se a Eucaristia é o
centro e o cerne da vida cristã, deixar uma comunidade sem celebração
eucarística dominical é impedi-la de viver a sua verdadeira identidade.
Soluções já existem como já tive oportunidade de mostrar, mas a hierarquia
resiste e não quer adotá-las. Se a hierarquia não resolve, cabe às comunidades
cristãs abandonadas encontrarem uma solução. E Tertuliano, um escritor cristão
do final do II e início do III século, propôs uma solução muito simples. Mesmo
reconhecendo que em circunstância normais cabe ao bispo e seu conselho
presbiteral presidir a Eucaristia, Tertuliano afirmava: “Onde não há um colégio
de ministros inseridos, tu, leigo, deves celebrar a Eucaristia e batizar; tu
és, então, o teu próprio sacerdote, pois, onde dois ou três estão reunidos, aí
está a Igreja, mesmo que os três sejam leigos”.