quinta-feira, 31 de maio de 2012

CORPUS CHRISTI


Corpus Christi:
Momento para repensar o mistério da Eucaristia
 
José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor universitário
             Na próxima quinta-feira, dia 7 de junho, a Igreja Católica celebrará a solenidade de Corpus Christi. Creio que tal celebração deveria ser revertida num momento para se repensar com toda seriedade possível o mistério da Eucaristia. Deveríamos sair das pompas, ostentações e luxo e nos voltarmos para o silêncio contemplativo e reflexivo.
            O primeiro momento deste processo reflexivo deveria ser um repensar a própria solenidade de Corpus Christi. Sabemos que esta festa surgiu no auge de uma violenta crise pela qual passava a Igreja Católica. A liturgia havia se sofisticado e se distanciado do povo. Era celebrada em latim, língua não mais falada pelas comunidades. Além de serem celebradas numa língua incompreensível, as liturgias eram pomposas, luxuosas, uma verdadeira afronta aos pobres. Tinham se tornado uma coisa para o clero, pois o povo fora reduzido a mudo espectador. Neste contexto corria solta a simonia: a celebração dos sacramentos, especialmente da Eucaristia, dependia de muito dinheiro. Assim, por exemplo, o preço da missa dependia do modo como o padre erguia a hóstia consagrada durante a anamnesis, chamada de “consagração”, e considerada o momento mais importante da missa.  Quanto mais alta a elevação, mais cara era a missa.
            Por essa e outras razões a liturgia ficou reduzida a mero devocionalismo. As pessoas não mais participavam da Eucaristia e a tinham apenas como simples devoção. Iam às igrejas para adorar o Santíssimo Sacramento e não para participar da Ceia do Senhor. A situação ficou tão grave que a própria hierarquia determinou que se comungasse pelo menos uma vez por ano, durante o período da Páscoa. Foi neste contexto que o papa Urbano IV, em 1264, fixou a solenidade de Corpus Christi: uma festa para adorar pública e pomposamente a hóstia consagrada. Portanto, a festa de Corpus Christi, como veremos a seguir, é um desvirtuamento radical do significado litúrgico do mistério do Corpo e do Sangue do Senhor. Ou, se preferirmos, uma traição do pedido do Mestre: “Tomai e comei, tomai e bebei”.
            Considero a festa de Corpus Christi, na forma como ainda é celebrada atualmente, um desvirtuamento litúrgico e uma traição do mandato de Cristo por várias razões. Antes de tudo porque Jesus não deixou dito que ele queria ser adorado pomposamente num ostensório luxuoso nas igrejas e pelas vias públicas de uma cidade. Colocar a Eucaristia, sacramento do simples e pobre pedaço de pão, num ostensório de ouro é, recordando São João Crisóstomo, ofender aquele que não tinha onde reclinar a cabeça.
             Em segundo lugar porque o cerne da Eucaristia está não na adoração, mas na refeição, na comida, na ceia. Ou, se quisermos, o modo correto de adorar a Eucaristia é participar da ceia, é comer do pão e beber do cálice. De fato, Jesus não disse “tomem e adorem, mas tomem e comam, tomem e bebam”. A adoração eucarística surgiu por meio do costume de se levar um pedaço do pão eucarístico para os doentes impedidos de participar da celebração litúrgica dominical. E como se acreditava que aquele pedaço de pão era o sacramento do Corpo e Sangue de Cristo, enquanto ele não era levado e consumido pelo doente, era adorado como sacramento da real presença de Cristo no meio da comunidade cristã.
              O hábito de consagrar hóstias apenas para trancá-las num “cofre dourado” e ser adorado pelas pessoas é um costume que nasce no contexto de crise antes mencionado, quando se havia perdido por completo a noção do mistério eucarístico. Portanto, é algo que destoa do significado da Eucaristia para a comunidade cristã. As normas para o culto à Eucaristia fora da missa, emanadas pelo próprio Vaticano, são muito claras a este respeito. Chegam inclusive a dizer que se deve evitar neste culto tudo aquilo que possa tirar da Eucaristia a sua natureza de alimento, de comida, de refeição. Por rigor de lógica as espécies eucarísticas, quando colocadas para a veneração dos fiéis, deveriam ser postas em pratos de comida e não em ostensórios luxuosos. Porém, as próprias autoridades eclesiásticas são as primeiras a não obedecer aquilo que escrevem para os outros.
               Em consonância com o que acabou de ser dito, a festa de Corpus Christi deveria ser uma oportunidade para uma profunda catequese sobre o que é, de fato, a Eucaristia. Infelizmente a crise antes mencionada levou a se pensar na Eucaristia como o sacramento da “carne” do homem histórico Jesus de Nazaré. Assim a concepção comum presente na mente de bispos, padres e fiéis é que os termos “carne”, “corpo”, “sangue” se refiram exclusivamente ao corpo biológico de Jesus. A Eucaristia seria a transformação de algumas hóstias e de um pouco de vinho num amontoado de células e moléculas do corpo físico do Jesus histórico que viveu na Palestina há dois mil anos.
                 Porém, quando nos voltamos para os textos bíblicos não é essa a compreensão que temos. O termo “corpo” (em hebraico “basar” e em grego “soma”) não significa apenas o aspecto biológico, mas a pessoa inteira na sua condição de corporalidade. Trata-se da pessoa na sua totalidade revelada em sua forma visível e em comunicação com os outros. Jesus, segundo Marcos (14,22-24), o mais antigo dos evangelhos, ao dizer na última ceia “éstin tò somá mon” (“isto é o meu corpo”) e “éstin tò haîmá mon” (“isto é o meu sangue”), não está se referindo apenas ao seu corpo biológico, às células do seu corpo físico, mas à totalidade da sua pessoa de Filho de Deus encarnado. E quando convida os discípulos a comerem do seu “corpo” e a beberem do seu “sangue” Jesus não está pensando num ritual antropofágico ou canibal, mas num gesto de comunhão e de adesão plena à sua pessoa.  
               O biblista italiano Settimio Cipriani, que estudou profundamente esta questão, afirma que as palavras de Jesus poderiam ser traduzidas da seguinte maneira: “O que estou fazendo (partindo o pão e distribuindo-o) significa a oferta da minha pessoa por vocês”. De fato, nas culturas antigas, especialmente na cultura judaica, o ato de comer e de comer juntos não tem apenas o significado biológico de ingerir substâncias para saciar a fome e manter-se vivo. Comer e comer juntos tem um significado simbólico, sacramental: significa que os comensais participam da mesma sorte, estão unidos pelo mesmo destino, estão em comunhão entre si. Assim sendo, a participação na Eucaristia, na Ceia do Senhor, é um gesto sacramental através do qual o cristão e a cristã manifestam a sua adesão total à pessoa de Jesus e se dispõem a participar da mesma sorte do Mestre. Portanto, reduzir a Eucaristia a um significado meramente biológico, a um pedaço da carne biológica de Cristo (como se tem feito em alguns casos de supostos milagres eucarísticos) é desvirtuá-la completamente do seu verdadeiro significado sacramental.
                 Isso pode ser confirmado pelo texto eucarístico do Evangelho de João (6,51-56). Mesmo não narrando a instituição da Eucaristia, João apresenta Jesus convidando seus ouvintes a comerem a sua carne e a beberem o seu sangue. Sabemos que na Bíblia o termo “carne” (em hebraico “basar” e em grego “sárx”) não significa apenas o elemento físico, biológico, mas a pessoa humana, na sua totalidade, existindo como ser frágil e mortal. É o ser humano total na sua condição de caducidade. Por sua vez o “sangue” (em hebraico “dam” e em grego “haîma”) não significa apenas o líquido vermelho que escorre nas veias do ser humano, mas a sua vida, o seu existir pleno. O convite de Jesus feito a seus ouvintes significa um convite a entrar em plena sintonia com a sua pessoa e o seu projeto de vida. Participar da Eucaristia é aderir ao mistério do Filho de Deus que “se fez carne” (Jo 1,14), ou seja, que abriu mão da sua condição divina para viver entre nós como “simples homem” (Fl 2,7-8). Participar da Eucaristia não é participar de um rito antropofágico, no qual se come um pedaço da carne biológica do Jesus histórico, mas comungar da sua fragilidade, da sua fraqueza, da sua encarnação. Se entendêssemos isso causaríamos uma verdadeira revolução no cristianismo e contribuiríamos para o advento de uma nova humanidade.
               Por fim, a festa de Corpus Christi deveria ser um momento para se pensar numa solução definitiva para o problema daquelas milhares de comunidades cristãs espalhadas pelo mundo e que são privadas da celebração eucarística dominical, por falta de um ministro ordenado que a presida. Se a Eucaristia é o centro e o cerne da vida cristã, deixar uma comunidade sem celebração eucarística dominical é impedi-la de viver a sua verdadeira identidade. Soluções já existem como já tive oportunidade de mostrar, mas a hierarquia resiste e não quer adotá-las. Se a hierarquia não resolve, cabe às comunidades cristãs abandonadas encontrarem uma solução. E Tertuliano, um escritor cristão do final do II e início do III século, propôs uma solução muito simples. Mesmo reconhecendo que em circunstância normais cabe ao bispo e seu conselho presbiteral presidir a Eucaristia, Tertuliano afirmava: “Onde não há um colégio de ministros inseridos, tu, leigo, deves celebrar a Eucaristia e batizar; tu és, então, o teu próprio sacerdote, pois, onde dois ou três estão reunidos, aí está a Igreja, mesmo que os três sejam leigos”.


domingo, 20 de maio de 2012

CORRUPÇÃO NO BRASIL

Do substantivo cascata ao verbo cascatear


José Lisboa Moreira de Oliveira

Filósofo, teólogo e professor na Universidade Católica de Brasília


Entre nós brasileiros a expressão “cascata” virou sinônimo de mentira. De acordo com o Dicionário Aurélio, o verbo “cascatear” significa mentir, enganar, trapacear, enrolar. Por isso este substantivo e este verbo podem substituir perfeitamente o termo “cachoeira”, que no momento se transformou em sinônimo para nós brasileiros de bandidagem, de contravenção e de jogatina nacional. Podem identificar todos aqueles que estão “cascateando” o povo brasileiro. É o caso do senador cascateiro, até pouco tempo atrás apresentado pela grande mídia como o baluarte nacional da moral e da ética.

A grande mídia, todos sabem, está entre os grandes “cascateadores” do Brasil. De um modo geral ela cascateia quando defendem os interesses de grupos econômicos, quase todos formados por “cascateiros”. Por este motivo dá tratamento vip ao bandido rico e esculacha o pobre infrator, o qual, quase sempre, é vítima do sistema injusto, discriminador e excludente, criado pelos “cascatas” nacionais. Seguindo esta lógica, o bicheiro Cascata, quando apresentado pela mídia cascateira, é chamado de “o senhor Cascata” ou de “o empresário Cascata”. Quando, porém, o infrator é pobre, especialmente se for pobre e negro, ele é chamado de bandido, facínora, monstro e meliante, e os âncoras cascateiros dos programas policiais cascatas da mídia cascateadora pedem prisão perpétua e até pena de morte para estas pessoas.

E como se não bastasse, o infrator pobre é condenado a apodrecer na cadeia porque não tem dinheiro para pagar um bom advogado e deve ficar à mercê da Defensoria Pública. Já o meliante Cascata pode pagar um advogado de renome, o qual, tendo sido Ministro da Justiça, dá um terrível mau exemplo à sociedade brasileira, aceitando ser um simples “advogado de porta de cadeia” de um bandido contraventor e chefe de jogatina. Com isso o ex-ministro sinaliza para o povo brasileiro que o que ele fez enquanto ministro não passou de cascata, que a justiça é simples cascatear e que, em vez de praticar a ética, pode-se viver cascateando. Para ele justiça e ética significam ganhar muito dinheiro de um graúdo cascata, mesmo sabendo que seus horários provêm da contravenção e do dinheiro sujo da jogatina ou desviado por cascateiros do seu real destino, que era o bem-estar dos pobres e necessitados.

De tanto conviver com cascatas e cascateiros, o povo brasileiro vai deduzindo que a vida é cascatear, e que não vale à pena manter limpas as belas águas da cachoeira da moral e da ética. Assim, aos poucos, todos, mesmo que silenciosamente, transformam Cascata, o bandido, num santo de altar e começam a venerá-lo, buscando imitá-lo em tudo, sendo também eles perfeitos cascateiros. Deste modo Cachoeira vira Cascata e depois Esgoto e arrasta consigo uma multidão de pessoas que, iludida e cascateada, se sente feliz, mesmo estando totalmente mergulhada na podridão e no fedor. É o resultado do famoso “efeito cascata”.

 

sábado, 5 de maio de 2012

ESCÂNDALOS NA IGREJA


O próximo escândalo na Igreja

 José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor universitário

             Donald Cozzens no seu livro A fé que ousa falar (Loyola, 2006) deixou bem claro que o próximo escândalo na Igreja será de ordem econômica ou financeira: “Embora muitos, se não mesmo a maioria, dos bispos e párocos levem uma vida de fato simples e sem pretensões, distinguindo cuidadosamente o que pertence à Igreja e o que lhes pertence como indivíduo, alguns não se comportam assim. Não surpreende, portanto, que comentaristas familiarizados com as engrenagens internas eclesiais afirmem que a próxima onda de escândalos que irá abalar as bases da Igreja será de natureza fiscal” (pp. 27-28).

Por sua trajetória e por sua competência, Cozzens deve ser levado a sério. Foi ele, a partir dos conhecimentos que tinha e dos estudos feitos, um dos primeiros a prever o escândalo da pedofilia clerical na Igreja dos Estados Unidos. Parte de sua previsão foi publicada no livro A face mutante do sacerdócio (Loyola). Por causa disso, foi intimado a comparecer ao Vaticano para sentar-se na mesma cadeira que Galileu e Boff sentaram. Quando estava arrumando as malas para viajar, estourou o escândalo e adiaram “sine die” a sua ida a Roma. Até hoje não foi chamado e neste tempo de espera, além dos livros acima mencionados, escreveu também O silêncio sagrado (Loyola), no qual denuncia a política da hierarquia da Igreja de recusar-se a falar de certas coisas e de não silenciar diante de outras.

            Passados poucos anos da sua previsão, os escândalos financeiros começam a pipocar. O maior e o pior deles é a inclusão do Banco do Vaticano, feita pelo Departamento de Estado norte-americano, na lista dos prováveis 67 paraísos fiscais, onde os políticos corruptos, traficantes de drogas e outros criminosos abrem suas polpudas contas bancárias, com dinheiro manchado de sangue. Embora o Banco do Vaticano não apareça entre os piores paraísos fiscais, a simples inclusão do seu nome na lista já é por si só um tremendo escândalo. Tal escândalo se agrava se levarmos em conta que o próprio papa, em 2010, antes da ação do Departamento de Estado, determinou uma investigação cuidadosa para verificar se o dinheiro que circula pelo Banco da Santa Sé é realmente limpo.

            Mas os escândalos financeiros não param por aí. Estou convencido de que, se houvesse uma séria fiscalização feita pela própria Igreja e pelos governos, viriam à tona escândalos que levariam o próprio diabo a corar de vergonha. Recentemente tivemos, no Rio Grande do Sul, o caso de um padre que arrecadou dinheiro para a paróquia e depois sumiu com todo o montante. O povo denunciou o caso ao Ministério Público e a questão foi parar na Justiça. O padre, um estrangeiro, fugiu para seu país, onde se esconde para não prestar contas aos paroquianos e à Justiça brasileira. Mas a bomba pode estourar nas mãos do bispo diocesano, causando sérios estragos, sem falar no estrago ético e moral que já aconteceu.

Há cerca de um ano atrás se descobriu que o ecônomo de um famosíssimo instituto religioso, com sede no Paraná, sumiu com vultosas somas de dinheiro, levando sua província à falência. Como “castigo” mandaram-lhe como missionário para uma região pobre do norte de Minas, onde certamente não vai faltar dinheiro para ele continuar desviando. Também nestes dias um caso abala a Itália. Roberto Formigoni, um político bem conhecido, antigo governador da rica região da Lombardia, membro do “Memores Domini”, ala de leigos celibatários do movimento Comunhão e Libertação (CL), está sendo acusado de se envolver em escândalo de corrupção e suborno em contratos públicos de saúde e de usar recursos públicos para pagar férias pessoais. Outro membro de CL, Antonio Simone, foi preso e acusado de desviar 74 milhões de dólares do Instituto de Saúde Italiano. A coisa ficou tão séria que o dirigente geral de CL foi obrigado a vir a público para pedir desculpas e solicitar a punição dos prováveis culpados.

            Casos de eclesiásticos que arrecadam dinheiro e não prestam conta ao povo, de membros da hierarquia que somem com os bens das paróquias, não são exceções na Igreja. Existem inclusive denúncias de roubo de objetos de arte pertencentes a igrejas tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, cujo sumiço é muito misterioso. Há poucos dias, visitando uma cidade histórica do Recôncavo baiano, soube do roubo de imagens valiosíssimas de uma determinada igreja. Há sérios motivos para se desconfiar de que o pároco esteja envolvido no caso. E a principal razão para a desconfiança é que o padre não quer que se toque no assunto.

            Existem várias causas por trás desse comportamento dos eclesiásticos. Em primeiro lugar o fato de que durante praticamente todo o segundo milênio a hierarquia da Igreja tinha hegemonia e poder absoluto sobre todo o povo de Deus. Aos simples leigos cabia a obrigação de sustentar o clero, sem pedir satisfação ou explicações acerca do modo como o dinheiro e os bens da Igreja eram administrados. Qualquer pedido de explicação era castigado com excomunhões e com sérias ameaças inquisitoriais. Exemplo disso é a denúncia das vendas de indulgências feitas por Lutero. O reformista não terminou na forca ou na fogueira porque conseguiu fugir e receber proteção dos príncipes alemães.

            Além disso, há a ingenuidade de alguns prelados, os quais, mesmo que bem intencionados e pobres, acreditam que não há necessidade de prestar contas, porque eles são honestos e o povo acredita piamente na boa intenção deles. Isso é reforçado pela imagem sacral do padre, ainda muito presente entre o povo. Pode-se até desconfiar da honestidade de um eclesiástico, mas as pessoas acreditam que é perigoso se meter com quem mexe com o divino. Enfrentar o ministro religioso pode dar azar e complicar por demais a vida das pessoas. Afinal de contas ele é o representante de Deus.

            Por fim, especialmente nos nossos dias, cresce no meio do clero os tipos inescrupulosos e corruptos, que veem o ministério ordenado não como serviço, mas como a forma mais fácil de ganhar fama e dinheiro. Infelizmente, a dimensão humano-afetiva não é bem trabalhada nos seminários e é cada vez mais frequente o acesso ao ministério ordenado de carreiristas e de oportunistas, os quais não têm escrúpulos de se utilizar dos meios mais sórdidos e ilícitos para ganhar fama e, por meio da fama, muito dinheiro. A coisa é tão grave que o próprio papa chegou recentemente a denunciar em público o carreirismo e oportunismo de certos clérigos.

            Espero que as autoridades eclesiásticas se deem conta dessa realidade e comecem a agir. Não esperem que os escândalos se multipliquem para tomar providências. Segundo Cozzens, a primeira providência a ser tomada é a eliminação da cultura clerical feudal que faz do bispo e do padre verdadeiros senhores e príncipes e dos demais fiéis apenas servos que os sustentam. É urgente a eliminação da púrpura real, das vestes litúrgicas cheias de brocados multicores que transformam os ministros ordenados em ricos avarentos arrogantes e autoritários. Além disso, urge rever o conceito de autoridade, diz Cozzens. Precisamos da presença na Igreja de “autoridades autorizadas e não autoritárias”. Autoridade autorizada é aquela que pela sua maneira de viver, de agir, reflete a pobreza e a simplicidade do Mestre servidor, que não tinha onde repousar a cabeça.

            O Evangelho nos diz que são inevitáveis os escândalos nas comunidades cristãs. Mas diz também que os que provocam escândalos serão responsabilizados por seus atos. E os contextos onde essa exortação aparece não deixam dúvidas: trata-se do escândalo provocado pelas lideranças religiosas (Mt 18,1-14; Lc 17,1-10). E as lideranças cristãs escandalizam quando abandonam ou renegam a simplicidade de vida, quando se recusam a servir e querem ser servidos, e quando não cuidam dos pequeninos e dos desamparados. Aliás, se considerarmos o texto mencionado de Lucas, veremos que não escandalizar é o mesmo que ter fé, uma fé que é capaz até mesmo de arrancar o que parece irremovível e intransponível (Lc 17,5-6). Nesse sentido, o não cuidar da transparência no campo econômico talvez represente o pior escândalo para o povo. Não por acaso se costuma afirmar que o povo perdoa qualquer pecado do ministro ordenado, mas não perdoa a sua avareza, a sua falta de honestidade no uso do dinheiro que pertence à comunidade. E com toda razão, pois “o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males” (1Tm 6,10).

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Direitos Humanos na Igreja


Violação de direitos humanos na Igreja



José Lisboa Moreira de Oliveira

Filósofo, teólogo, escritor e professor universitário



Hoje, falar de direitos humanos e do respeito a eles devido é a coisa mais natural do mundo. A humanidade, depois de muita dor e sofrimento, de tantas atrocidades cometidas no passado, aprendeu a duras penas que cada homem, cada mulher e cada grupo humano é sujeito de direitos. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, redigida e promulgada logo após a desastrosa experiência da Segunda Guerra Mundial, diz em seu preâmbulo que “o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo”. Diz igualmente “que o desprezo e o desrespeito pelos direitos humanos resultaram em atos bárbaros que ultrajaram a consciência da Humanidade e que o advento de um mundo em que os homens gozem de liberdade de palavra, de crença e da liberdade de viverem a salvo do temor e da necessidade foi proclamado como a mais alta aspiração do homem comum”.

A partir da Declaração Universal dos Direitos Humanos os países democráticos foram modificando as suas Constituições e incluindo princípios que não só garantissem, mas ampliassem tais direitos. No caso do Brasil, a Constituição “cidadã” de 1988, elaborada e promulgada após o período trágico da ditadura militar, que se instaurou no país a partir do golpe militar de 1964, é a garantia desses direitos. Embora não faltem aqueles que, de vez em quando, querem aplicar novos golpes, tentando, através de emendas à Constituição Federal, solapar e eliminar o que foi conquistado com muita luta e suor.

A Igreja Católica custou aceitar e respeitar a proclamação destes direitos humanos. Enquanto no mundo avançava a luta por estes direitos, os católicos entraram no século XX sendo obrigados a engolir coisas absurdas como aquelas do famoso Syllabus de Pio IX. Felizmente veio o Vaticano II, o qual, em diversos dos seus documentos, reconheceu o valor supremo da dignidade humana e proclamou que a Igreja deve ser a promotora e a defensora dos seus inalienáveis direitos. A Constituição Pastoral Gaudium et Spes, por exemplo, pede que os direitos das pessoas “sejam mais bem assegurados”, de modo “que  todos os cidadãos, e não apenas alguns privilegiados, possam gozar realmente dos direitos da pessoa (nº 73). Nesse sentido, continua a Gaudium et Spes, são deploráveis todas as “formas totalitárias ou ditatoriais, que lesam os direitos das pessoas ou dos grupos sociais” (nº 75). As ações e atos decorrentes das imposições, dos totalitarismos e das ditaduras são verdadeiros crimes e as pessoas devem ser encorajadas a lutar e “resistir abertamente aos que as querem impor” (nº 79)

Diante deste fato era de se esperar que, em pleno século XXI, a Igreja Católica não só proclamasse em seus documentos e pronunciamentos o respeito pelos direitos humanos, mas desse um testemunho ímpar de uma prática incontestável deste respeito. Mas, infelizmente, não é o que vem acontecendo. A cada dia tomamos conhecimento de práticas absurdas, envolvendo os seus dirigentes, e que são exemplos evidentes da violação dos direitos humanos mais elementares.

A mais recente dela diz respeito a uma mulher de vida consagrada, reeleita pela quase totalidade dos votos para uma função num dos Regionais da CNBB, e destituída pela autoridade hierárquica superior, por meio de carta, em plena Semana Santa, com a simples desculpa de que naquela função deveria estar um padre. A eleição da mulher seguiu fielmente os estatutos aprovados pela instituição eclesiástica e nos quais não há nenhuma cláusula determinando que só pudesse concorrer àquele cargo alguém que fosse presbítero. Vale dizer que a instituição eclesiástica em causa tem também reconhecimento civil e, por isso, a decisão arbitrária do hierarca produziu também um problema jurídico perante as leis brasileiras.

A decisão arbitrária da autoridade hierárquica causou grande mal-estar não só para a mulher destituída de sua função, mas também para todos aqueles e aquelas que nela votaram e que, de repete, se viram desrespeitados e ridicularizados pela autoridade máxima da hierarquia da Igreja no Regional. A reeleição da mulher, além de seguir fielmente o estatuto canônico e civil, foi aprovada pelo bispo referencial presente ao ato e que, naquele instante, representava os demais bispos do Regional. A eleição e a posse constam em ata, a qual deu formalidade legal ao ato.

Creio que não seria nem mesmo necessário dizer que esta atitude desrespeitosa da máxima autoridade eclesiástica do Regional não tem motivos evangélicos e humanos. Só pode ser motivada por caprichos, por despeito e por medo de que a presença dessa mulher numa instância significativa do Regional coloque em crise a sua frágil autoridade. De fato, por trás de todo autoritarismo se escondem sempre a fragilidade e a incompetência. A vida íntegra e profética de determinadas pessoas sempre incomoda os personagens eclesiásticos autoritários, os quais têm sempre o que esconder por debaixo da capa da arrogância e da prepotência.

Creio ainda que não seria nem mesmo necessário lembrar que estas atitudes das autoridades eclesiásticas ferem e contradizem profundamente o Evangelho, o qual é muito radical em afirmar que as lideranças eclesiais não devem se comportar como os tiranos deste mundo que oprimem e dominam (Mc 10,42-45). Não seria preciso lembrar que o comportamento das pessoas na comunidade cristã deve ser sempre de respeito, carinho e ternura, uma vez que nela não devem existir excelências, eminências, senhores, mestre e pais, mas apenas irmãos e irmãs (Mt 23,8-12). Não seria preciso recordar que o distintivo do cristão é a prática do amor (Jo 13,35) e que as autoridades eclesiásticas, se quiserem ser sinal sacramental de Cristo Pastor, devem “lavar os pés” das pessoas (Jo 13,12-17) e tratá-las como amigas e não como escravas (Jo 15,12-17).

É claro que nem todas as autoridades eclesiásticas se comportam desse modo. Felizmente a maioria absoluta dos padres e bispos é cuidadosa e respeitosa, tratando os fiéis com carinho e zelo e não se comportando de forma autoritária. Porém, quando acontecem casos como este o estrago é muito grande, uma vez que na Igreja Católica a figura da autoridade eclesiástica ainda se encontra revestida de grande significado religioso, educativo e moral. Ao cometer um ato desrespeitoso como este a autoridade eclesiástica sinaliza claramente que para ela a mensagem do Evangelho não possui nenhum valor e pode ser anulada a qualquer hora e por qualquer motivo. Não podemos esquecer que na linguagem da comunicação – elemento fundamental para a evangelização – os símbolos e gestos costumam falar mais fortes do que as palavras. Os meios mais poderosos são aqueles revestidos de afeto e de humanidade e quando os gestos e símbolos são de autoritarismo e dominação, terminam por deformar e decepcionar os crentes, que esperam de seus pastores atitudes mais em conformidade com as do Mestre e Senhor, que quis lavar os pés de seus discípulos e não pisá-los e humilhá-los.

As autoridades eclesiásticas não podem esquecer que os tempos são outros e que as pessoas não aceitam mais arbitrariedades e atitudes caprichosas como esta. As pessoas que legitimamente participaram da legítima reeleição da irmã estão não só indignadas, mas também revoltadas, pois sabem perfeitamente que a atitude da autoridade eclesiástica foi arbitrária, desrespeitosa e antievangélica. Um ato como este tem um terrível poder destruidor e, sem dúvida alguma, vai contribuir para que muita gente se afaste indignada de uma Igreja incapaz de dar provas reais de amor cristão.

Portanto, não nos deve surpreender se nos últimos vinte anos a percentagem de católicos caiu de 83,34% para 67,84 %. Dizem que os bispos católicos do Brasil, reunidos recentemente em Aparecida, ficaram assustados com esses dados. Creio, porém, que deveriam se assustar com o que alguns deles e seus padres andam fazendo, de forma a levar os fiéis a se distanciarem de suas comunidades.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

FALTA DE PRESBÍTEROS

Deus chama, mas a hierarquia da Igreja não aprova

José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor universitário

Passei a Semana Santa em um povoado do sul de Minas Gerais. O “bairro”, como o mineiro da região denomina o que nós normalmente entendemos por “povoado”, conta com mais de 200 moradores. De fato na última eleição votaram na seção eleitoral existente no local cerca de 190 eleitores. No “bairro” só existe uma templo da Igreja Católica. Não existem templos evangélicos e nem lugares de cultos de outras religiões. A totalidade dos moradores é católica. Apenas uma família é evangélica, mas mora em São Paulo e tem uma chácara no local. Aparece por lá de vez em quando. Os que lá residem são todos católicos. O povoado fica a quatorze quilômetros da sede da paróquia, sendo que cerca de treze quilômetros são de estrada de chão: muita lama na época de chuvas e muita poeira no período de seca.
Acompanhei atentamente a celebração do Domingo de Ramos dirigida por três mulheres: a coordenadora da comunidade, a ministra da Palavra e a ministra extraordinária da comunhão eucarística. O povoado inteiro estava presente. Havia mais de duzentas pessoas, pois no domingo muitos visitam os parentes que moram no “bairro”. Tudo se desenvolveu de forma impecável. Os fiéis se reuniram à beira do rio que corta o povoado. Houve a “bênção” dos ramos, a procissão em direção à capela, a liturgia da Palavra solenemente proclamada pela ministra da Palavra, a “homilia” pronunciada pela coordenadora da comunidade e a distribuição da eucaristia feita pela ministra extraordinária. Tudo dentro da mais perfeita ortodoxia doutrinal e litúrgica.
Na quinta-feira santa apareceu um padre enviado pela paróquia que presidiu a missa da Ceia do Senhor e depois foi embora. Nos outros dias da Semana Santa a comunidade voltou a se reunir sob a presidência e coordenação das três mulheres. No domingo o padre voltou para celebrar a missa do domingo de Páscoa.
Costumo passar boa parte das minhas férias neste “bairro” do sul de Minas, uma vez que é a terra natal da minha esposa. Por isso tenho conhecimento de que nesta comunidade católica a Eucaristia é celebrada uma ou, no máximo, duas vezes por mês. Normalmente a celebração eucarística se dá durante os dias feriais da semana e não no dia do Senhor, de modo que se pode afirmar que não há o memorial da morte e ressurreição de Jesus no domingo, como pede a liturgia, desde a mais remota antiguidade cristã.
Este fato, comum a milhares e milhares de comunidades eclesiais espalhadas pelo mundo inteiro, revela que hierarquia da Igreja Católica não consegue colocar em prática a máxima evangélica que pede atenção aos “sinais dos tempos”. Ela continua afirmando que a Eucaristia é o centro e o ápice da Igreja. Continua proclamando em seus documentos que a Eucaristia faz a Igreja. Insiste em dizer que onde não há Eucaristia não há Igreja Católica. Tudo isso é verdade, não resta nenhuma dúvida, mas, em sua insensibilidade aos apelos divinos, a hierarquia continua permitindo que o absurdo dos absurdos aconteça. Permite que milhares e milhares de comunidades, como esta do sul de Minas, fiquem sem a celebração eucarística dominical. Fiquem sem poder vivenciar e testemunhar a própria identidade, uma vez que, segundo os documentos oficiais da Igreja, é a celebração eucarística, presidida por um ministro ordenado, que melhor expressa a identidade católica.
Diante de absurdos como esse fico a me perguntar a que coisa serviu a realização algum tempo atrás de um “ano eucarístico”. Interrogo-me também sobre o sentido de um “ano sacerdotal” celebrado recentemente. No meu entender serviram apenas para fomentar beatices e reconfirmar as mesmices eclesiásticas. Estes dois eventos não trouxeram nenhuma contribuição efetiva para a solução de problemas tão graves como este da falta da celebração eucarística dominical e que já começa a afetar a identidade católica. Um bispo da Amazônia me dizia há algum tempo atrás que em muitas das comunidades de sua diocese o povo fica até anos sem a celebração eucarística. Ele estava preocupado porque isso está contribuindo para a perca da identidade católica. De tanto celebrar “cultos” as comunidades já estão perdendo a noção e a experiência do que seja a celebração eucarística. Este mesmo bispo, chegando certa vez a uma dessas comunidades, após ser recebido com muito entusiasmo pelo povo, foi convidado a presidir “o culto”!
E não podemos aceitar a desculpa de que não há o que fazer. Existem soluções possíveis, bem ortodoxas e em plena sintonia com a mais genuína tradição eclesial. São muitas as pessoas, inclusive bispos, que não se cansam de oferecer alternativas possíveis e concretas. Se a situação chegou a essa extrema gravidade é porque a hierarquia da Igreja é incapaz de ler os sinais dos tempos, não abre mão de um modelo de Igreja arcaico e ultrapassado, se fecha na própria autossuficiência e se recusa a voltar às raízes do cristianismo.
Aponto, por exemplo, uma solução simples, ortodoxa, ecumênica e bem antiga. O Concílio de Calcedônia, celebrado no ano 451, no seu cânon 6, declarou sem efeito e proibiu as chamadas “ordenações absolutas”, ou seja, aquelas ordenações em que o ordenando não tivesse sido designado antes como ministro de uma igreja, cidade, povoado, santuário do interior ou mesmo de um mosteiro. Para ser ordenado diácono, presbítero ou bispo o ordenando deveria e deve ser designado antes como ministro de uma comunidade à qual servirá por toda a vida. Caso isso não aconteça, a ordenação se torna inválida, uma vez que, para a Igreja antiga, o ministério só tinha sentido quando voltado para o serviço de uma comunidade específica. Havia, pois, uma relação direta entre ordenação e comunidade eclesial. Detalhe que infelizmente hoje quase não se observa mais. Existem inclusive relatos de ministros que, na Igreja antiga, foram ordenados de novo, quando por qualquer motivo, tiveram que deixar a comunidade a que serviam e foram transferidos para outras localidades.
Mesmo deixando de lado a possibilidade da ordenação de mulheres, uma vez que isso assusta e causa mal-estar à hierarquia, a proposta continua válida e atual. Em todas essas comunidades, inclusive naquela do povoado do sul de Minas, existem os chamados “viri probati”, homens casados ou até solteiros, cuja fé é inabalável e cuja vida é marcada por um testemunho heroico de fidelidade à Igreja. Estes homens, muitas vezes juntos com suas mulheres, animam, sustentam, catequizam e dinamizam essas comunidades. A ação é tão incisiva que em certos lugares, como é o caso do mencionado “bairro” do sul de Minas, toda a população se mantém católica, graças à ação evangelizadora dessas pessoas.
Pergunta-se então porque a Igreja Católica não resolve o grave problema da falta da Eucaristia, ordenando estes homens para presidirem a celebração eucarística dominical nestas comunidades. Seguindo à risca o cânon 6 do Concílio de Calcedônia, que, pelo que me consta, ainda não perdeu a sua validade, seria possível ordená-los exclusivamente e somente para a presidência da celebração eucarística dominical de uma determinada comunidade. Pelas normas do Concílio de Calcedônia eles ficariam impedidos de presidir a celebração eucarística em uma comunidade para a qual não foram designados antes da ordenação. Poderiam até participar como concelebrantes em uma celebração eucarística presidida pelo bispo diocesano ou pelo metropolita, mas nunca poderiam presidir fora de sua comunidade designada.
Portanto, soluções existem. O que falta é boa vontade e conversão da hierarquia católica, a qual insiste em manter a todo custo um modelo de ministério totalmente ultrapassado e não mais em condições de atender às necessidades pastorais da Igreja dos nossos tempos. No 4º Domingo da Páscoa vamos ter a Jornada Mundial de Oração pelas Vocações. Puro desperdício e perca de tempo, pois é inútil pedir a Deus que mande vocações quando, com sua atuação concreta, a hierarquia impede que essas vocações se concretizem. As vocações não faltam. Elas existem e em abundância. O que falta mesmo é a humildade para se perceber que as formas de chamamento divino não coincidem mais com aquelas que a hierarquia aprova no momento. Quando, finalmente, surgirá a manhã da ressurreição para a Igreja Católica? Isso, nem o próprio Deus sabe, pois tudo está nas mãos da hierarquia!

quinta-feira, 29 de março de 2012

MENSAGEM DE PÁSCOA

Cristo, nossa páscoa, foi imolado.

José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor universitário

Sabemos que a origem da Páscoa cristã remonta a tradições religiosas anteriores ao mundo da Bíblia. Inicialmente era uma festa para celebrar a chegada da primavera no hemisfério norte. Depois ela passou a ser também um momento cultual de agricultores, no qual se oferecia às divindades os primeiros frutos da terra. Quando as populações mediterrâneas se tornaram nômades e pastoris, a festa da Páscoa passou a ser um ritual para oferecer aos deuses os primogênitos dos animais. Uma espécie de culto de gratidão e ao mesmo tempo de súplica pela prosperidade e fertilidade da terra e dos rebanhos. Mais tarde, quando tribos nômades da então Canaã se juntam para formar o povo de Israel, a Páscoa passou a ser a festa da libertação, vista como a passagem de Javé pelo Egito para tirar o povo da escravidão.
Com a chegada do cristianismo, a Páscoa judaica, aos poucos, foi se convertendo em Páscoa de Jesus. Passou-se a celebrar a ressurreição de Cristo, evento central da fé cristã. Um dos primeiros escritos cristãos, datado entre os anos 54 a 57 d. C., assim se expressava: “Se Cristo não ressuscitou, a nossa pregação é vazia e também é vazia a fé que vocês têm” (1Cor 15,14). A fé na ressurreição de Jesus é a crença na vitória de Cristo sobre a morte. Ele morreu, mas está vivo e caminha conosco. Assim sendo, a celebração da Páscoa cristã é a celebração da vida: “A morte foi engolida pela vitória. Morte, onde está a sua vitória? Morte, onde está o seu ferrão?” (1Cor 15,54-55).
Portanto, celebrar a Páscoa é celebrar a vida, com toda a sua beleza e riqueza. Não teria, pois, sentido celebrar a Páscoa aceitando passivamente todas aquelas formas de violência e de ódio que ceifam vidas humanas e destroem o nosso planeta, única casa que temos para viver. Neste sentido, a Páscoa cristã, recuperando a simbologia da Páscoa judaica, é a festa do compromisso e do engajamento, da luta pela liberdade e contra todas as formas de escravidão.
A Páscoa é a festa da disponibilidade, a festa da audácia, do convite para ir à luta, na busca da terra prometida, ou seja, da justiça que gera igualdade e equidade. A Páscoa não pode ser celebrada por quem cruza os braços e aceita tudo resignadamente. Segundo a tradição judaica, durante a Páscoa Deus passa para libertar, mas as pessoas precisam acolher essa passagem lutando e conquistando o espaço da liberdade. Por essa razão, diz a narrativa simbólica da Páscoa judaica, é preciso celebrá-la “com cintos na cintura, sandálias aos pés e cajado na mão” (Êx 12,11). Assim sendo, a celebração da Páscoa é convite à prontidão. Sem sair do próprio lugar, sem ir à procura, sem enfrentar os desafios, a liberdade e a libertação não virão.
As primeiras comunidades cristãs entenderam isso muito bem e desde cedo falaram da Páscoa como imolação de Jesus: “Cristo, nossa páscoa, foi imolado” (1Cor 5,7). Não se trata de um elogio fúnebre ao sacrifício de Jesus, à sua morte brutal, uma vez que essas comunidades tinham consciência de que Jesus não fora mandado por Deus para morrer de modo violento. Jesus fora enviado para anunciar uma Boa Notícia aos pobres: a libertação de toda forma de opressão (Lc 4,18-19). A sua morte brutal foi o resultado de um pacto entre o poder político romano e o poder religioso do templo. Ambos se uniram para eliminar um profeta incômodo que, anunciando a libertação dos cativos, ameaçava esfacelar um sistema construído sobre a opressão política e religiosa do povo (Jo 19,9-12).
Sendo celebração da vida, a Páscoa cristã, recuperando a simbologia judaica (Êx 12,1-20), foi vista desde o início como a festa da imolação. Imolação entendida como coragem para romper com sistemas e situações que impedem a vida de desabrochar. Os sistemas religiosos e políticos, corruptos e violentos, que geram morte e destroem a vida são, de acordo com os primeiros cristãos, o “fermento velho” que faz a vida apodrecer. Por essa razão é preciso celebrar a Páscoa “sem fermento”, ou seja, sem corrupção, sem adesão a tais sistemas (1Cor 5,6-8). Sem isso, diz esse texto do cristianismo nascente, haverá só malícia e perversidade.
Portanto, celebrar a Páscoa não é comer ovo de chocolate e sair por aí distribuindo figurinhas de coelhinho e nem “santinhos” de Jesus ressuscitado. Precisamos retornar às origens e entender a Páscoa como festa da vida e como compromisso para que a vida seja sempre uma festa. Sem engajamento e sem participação da nossa parte, sem compromisso com a justiça e sem luta, a Páscoa se transforma numa celebração consumista, voltada para o superficial e para o medíocre. Não será a festa da libertação e da ressurreição de Jesus.
Nós cristãos muitas vezes agimos como aquelas primeiras pessoas que na madrugada do domingo de Páscoa foram procurar Jesus no túmulo. Mais de dois mil anos depois nós nos comportamos como se Cristo estivesse apodrecido no sepulcro. Não temos esperança, não acreditamos na vida, não nos comprometemos com nada. Vivemos com medo e só pensando em nós mesmos. É hora de agirmos como anjos da ressurreição, gritando para todos os que fazem parte do cristianismo: “Por que vocês estão procurando entre os mortos aquele que está vivo? Ele não está aqui! Ressuscitou!” (Lc 24,5-6).
É hora de dizermos que o encontro com a vida plena, com o Ressuscitado, não se dá na escuridão dos túmulos do egoísmo, mas na claridade, na luz da abertura para o outro, na solidariedade. Mas para que tal encontro aconteça é indispensável o deslocamento para a Galileia, ou seja, para as periferias do mundo. Por mais contraditório que possa parecer, é na periferia que se dá a verdadeira Páscoa. Ali todos nós podemos encontrar aquele que é a Vida e o sentido para as nossas vidas: “Vão anunciar aos meus irmãos que se dirijam para a Galileia. Lá eles me verão” (Mt 28,10). Oxalá, nesta Páscoa, tenhamos a coragem de realizar este deslocamento, que, às vezes, é mais mental e cultural do que físico e geográfico. Isso nos permitirá um verdadeiro encontro com o Ressuscitado!

quinta-feira, 22 de março de 2012

IGREJAS

Igrejas: versão religiosa do Big Brother?

José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor universitário

Bauman no seu livro A ética é possível num mundo de consumidores? (Zahar, 2011) compara os atuais grupos humanos a verdadeiros ninhos de vespas. Segundo o autor há uma notória ausência de centros dotados de autoridade, onde se possam construir regras para alianças e respostas para os desafios. As pessoas vivem sem referenciais, buscando elas próprias preencher o vazio gerado por tal ausência. Assim sendo, os seres humanos mantêm-se num estado de fluxo permanente, sempre “se tornando” e nunca “sendo”. As identidades, se é que podemos usar este substantivo, são o resultado de um processo contínuo de negociações e de renegociações. A liberdade tão sonhada e tão cobrada atualmente vem acompanhada de insegurança e de constrangimentos. O medo de não ser livre termina sufocado pelo medo das ameaças dos outros e os homens e as mulheres aceitam perder um pouco da liberdade para terem mais segurança.
Em todo esse processo o self ocupa o lugar central e coloca o restante do mundo na periferia. As pessoas participam de grupos que se parecem com enxames de vespas porque perdem a dimensão comunitária e passam a ser manipulados por lideranças que dão as ordens. Os seres humanos estão juntos fisicamente, mas o que prevalece é o individualismo. Não há solidariedade, complementaridade, intercâmbio e fraternidade. Cada um, mesmo seguindo seu líder, termina pensando só em si, na sua segurança e na sua satisfação imediata. Por isso, diz Bauman, os laços humanos são fraquíssimos e se quebram com muita frequência e facilidade.
Como a incerteza é o “habitat natural” do sujeito consumidor, ela provoca o “desencaixe”, ou seja, a pessoa não se fixa em nada e em lugar nenhum. Vive sempre abandonando e substituindo. O pertencimento está necessariamente condicionado pelas exigências do ego. O indivíduo chega a participar de instituições, mas as vê e as tem apenas como lugares de descanso, de pouso, até que não deva prosseguir com sua permanente peregrinação. Para o sujeito consumidor, afirma Bauman, as instituições são “hotéis de beira de estrada” que servem apenas para um breve descanso da viagem.
Desta forma, diz nosso autor, as instituições terminam cedendo à pressão dos consumidores frenéticos e se tornando uma espécie de Big Brother. Elas são hoje apenas um espaço onde se pode dar uma “espiadinha” na vida dos que nela estão “confinados” para depois continuar vivendo como se aquele confinamento não existisse. Os que estão dentro da “casa” não cultivam a integração e a solidariedade, mas são estimulados, por quem comanda o espetáculo, a brigarem entre si para ver quem vai ser o líder. Desta forma, cada um considera os demais como inoportunos que devem ser expulsos do ambiente e enxotados para fora do páreo.
Na casa do Big Brother não há lugar para o outro e nem para quem pensa nos outros. Isso porque as pessoas que lá chegaram não chegaram por pertencimento, através de um rito solene de iniciação, mas através da promessa de prêmio para aquele que terminar sendo o “melhor”. Quem está na casa do Big Brother tem a sensação constante de estar num território estranho e potencialmente hostil. Aqui na há laços e não há lealdade. As pessoas são abandonadas a si mesmas e terminam confusas, sem saber como caminhar ou navegar no meio de tantas propostas, as quais, no final do itinerário, podem se revelar traiçoeiras e falsas.
Ora, essas considerações de Bauman me levam de imediato até as Igrejas. Não há como não vê-las como uma versão religiosa do Big Brother. O que são elas atualmente, salvo algumas exceções? Um enxame de pessoas que vagam sem rumo e sem direção, monitoradas e manipuladas por líderes carreiristas e exibicionistas. Nelas, inclusive na Católica, não há mais a consciência e o clima de assembleia convocada pela Trindade; não há a experiência de Povo de Deus. As pessoas são reunidas em verdadeiros confinamentos controlados por lideranças carreiristas que sonham chegar ao topo da hierarquia. Vestidos impecavelmente, com suas batinas, seus paramentos brilhosos ou ternos finíssimos, tais líderes controlam as subjetividades, mesmo que, na prática, se mantenham completamente afastados da vida real do povo, o qual é sempre deixado para trás em suas angústias e expectativas.
Por sua vez os fiéis transeuntes não se encontram por vocação, por convocação e pelo senso de pertença. Buscam vorazmente kits de salvação, vendidos e abençoados por bispos, padres e pastores, mesmo quando estes kits se reduzem a uma baforada no corpo, proveniente de um balde de “água santa” jogado sobre a multidão delirante. E para atender à sede de consumo religioso as Igrejas se transformaram em supermercados da fé, voltadas inteiramente para a satisfação imediata da busca de felicidade dos consumidores religiosos. Estes não se encontram unidos pela mesma fé, no conhecimento do Filho de Deus e para crescerem no seguimento (Ef 4,13). Encontram-se, por acaso, ao redor de um “curandeiro”, à cata de milagres que satisfaçam de imediato suas necessidades.
Desta forma fica configurado o Big Brother religioso. As Igrejas, administradas, policiadas e supervisionadas, com firmeza, por líderes carreiristas e esteticamente perfeitos, mobilizam multidões, especialmente entre os que ainda formam a periferia social, para confiná-las num refúgio milagreiro, marcado por ansiedades, exclusões e decepções. Nesses confinamentos religiosos a ilusão é visível. Os “milagres” são raros e somente alguns são “agraciados” com “curas e libertação”. O restante da multidão deve se conformar em voltar para casa e enfrentar a vida dura, onde só há um milagre: ir à luta para conseguir sobreviver. Deve se conformar e aceitar o “paredão” da exclusão social, da falta de oportunidades, do indeterminado, do imprevisível, percebendo-se, como diz Bauman “fora do lugar em todo lugar”.
O povo que fica na fila, a espera de “milagres”, é sempre ludibriado e manipulado por espertos que costumam passar a perna nos simples e pobres (Jo 5,7). Esses espertos são os próprios milagreiros e curandeiros. Eles são especialistas em extorquir os pobres; encher seus bolsos de dinheiro; construir templos para alimentar vaidades – mas que em breve serão frequentados apenas por morcegos –; comprar jatinhos para suas viagens e, sobretudo, tirar as suas famílias da miséria. Sem dúvida alguma, para solucionar os problemas dos sofredores bastaria que alguém, como Jesus, dissesse: “Levante-se e ande” (Jo 5,8). Mas, na verdade eles não querem que as pessoas se levantem e caminhem com as próprias pernas. Preferem manter a “indústria dos milagres” que traz polpudas somas para seus bolsos e suas famílias.